As calçadas
O inglês tem um verbo curioso, “to loiter”, que quer dizer, mais ou menos, andar devagar ou a esmo, ficar à-toa, zanzar (grande palavra), vagabundear ou simplesmente não transitar. E, nos Estados Unidos (não sei se na Inglaterra também), “loitering” é uma contravenção. Você pode ser preso por “loitering”, ou por estar parado em vez de transitando, numa calçada. O que constitui “loitering” e portanto crime e o que é apenas inocente ausência de movimento ou direção depende, imagino, da interpretação do guarda, ou daquela sutil subjetividade que também define o que é “atitude suspeita”. Mas é difícil pensar em outra coisa que divida mais claramente o mundo anglo-saxão do mundo latino do que o “loitering”, que não tem nem tradução exata em língua românica, que eu saiba. Se “loitering” fosse contravenção na Itália, onde ficar parado na rua para conversar ou apenas para ver os que transitam transitarem é uma tradição tão antiga quanto a sesta, metade da população viveria na cadeia. Na Espanha, toda a população viveria na cadeia.
Talvez a diferença entre a América e a Europa, e a vantagem econômica da América sobre os povos que zanzam, se expliquem pelos conceitos diferentes de calçada: um lugar utilitário por onde se ir (e, claro, voltar) ou um lugar para se estar, de preferência com outros. Os franceses, apesar de latinos, não costumam usar tanto a calçada como sala, não porque tenham se americanizado tanto que adotaram o “loitering” criminalizado para aumentar a produção, mas porque preferem usá-la como café, e estar com os outros sentados. Desperdiça-se tempo mas ganha-se anos de vida, parados numa calçada.
As grandes cidades brasileiras que perderam o seu centro também perderam o hábito do papo ocioso na rua. A falta de segurança nos transformou em assustados bichos de toca. No nosso uso das calçadas, não somos mais europeus folgados e não somos americanos determinados. Somos fugitivos.
L.F.Verísssimo
O Mundo é Bárbaro